
“Não posso negar, eu já tive mais inspiração antigamente. Escrever para mim não era somente umaforma de fugir e me esconder dessa realidade tão complexa, era uma forma de sonhar com aquilo que eu desejava alcançar, uma tentativa de tornar minha vida mais interessante do que ela realmente é, pelo menos no papel. Mas de uns temos pra cá, pouco me importar redigir o que sinto. De maneira nenhuma vejo algo mudar.Um papel e uma caneta, ou um simples lápis era como uma forma de salvação pra mim. Tudo que eu queria, era transformar o real no imaginário, na vã esperança que um dia ele viesse acontecer, do jeitinho que eu havia planejado. Planejar. Era exatamente isso que eu fazia, com um pouco de imaginação eu desenhava uma vida inteira, amores surreais, aventuras fora da expectativa, momentos únicos em minha mente que até eu mesma era capaz de me surpreender com tão forte criatividade. Parece uma grande bobagem, é claro. Mas essa sempre fui eu. A garota dos livros, a garota dos sonhos. E quando a inspiração me encontravaeu me sentia com um dom de algo marcante e incrivelmente raro, o dom de sentir as palavras, como se elas fizessem parte de mim, como se estivessem em meus poros, na minha corrente sanguínea. Em falar, admito que nunca fui a melhor, sempre tropeçava em meus discursos, tropeçava em minhas ideias. No entanto, escrever sempre foi tão natural como respirar. Foi, já não é mais. Eu mudei, e aquela garota sonhadora do passado foi embora com suas poesias, com seu romance aflorado, ela partiu e não sei se vai voltar. Eu vivi paixão intensa e vibrante com a inspiração que habitava em mim, com ela eu gostava de analisar a vida a minha volta, e como as coisas funcionavam. Agora, muita coisa já não me atraí. Se a possibilidade de esfriar existisse dentro de cada ser humano, eu poderia dizer que me encontro totalmente congelada. Sinto falta daquele prazer e da emoção que meu entusiasmo ingenuo me trazia.Nunca pensei que crescer, me faria ter que abandonar grande parte dos meus sonhos. E derrubá-los destrói tudo aquilo que eu planejei pra mim. No fundo eu sei, que a inspiração não foi totalmente embora, ela simplesmente espera um motivo, uma motivação para voltar a tona. E eu não vou sair por aí um motivo, vou esperar que ele venha até mim, que ele me encontre. Vou esperar que como uma explosão ele me capture. Quero me reencontrar. Quero a parte boa do meu velho eu que foi embora. Por que é quando eu escrevo que eu me sinto viva, é o que eu faço por prazer, e não por obrigação. É quando eu me vejo traduzida em palavras. E eu não posso, e não quero perder essa emoção e cair no vazio. Por que minha inspiração me preenche de vida. É o que me diferencia. Mostra quem eu realmente sou. .” — Lohanna Mota (perfume de lembranças)

